Afinal de contas, devíamos ser mais materialistas

Todos conhecemos o potencial de corrupção que a linguagem imprime no nosso mundo, certo? Se tiveste semiologia ou semiótica na faculdade perceberás a trivialidade do que estamos a dizer. Caso contrário, basta pensares nas vezes em que dizes uma palavra convicto do seu sentido e outros a compreendem de forma errónea. Ou quando te falam numa camisola verde e imaginas três tons ao lado. Ou quando, no fundo, no fundo, te sentes um hipster mas não admites pela conotação social.

A dinâmica entre a individualidade de cada um, o mundo natural e o mundo social é altamente mediada pela linguagem verbal como a conhecemos e, nesta triangulação, perdem-se, por vezes, algumas dimensões importantes para conceitos que parecem simples. Um destes conceitos popularmente mais enviesados é o de materialismo – e nem precisamos de explorar a dimensão filosófica que este conceito pode ter (Marx e Engels) para nos apercebermos da desvalorização social que dele fazemos.

A chamada de atenção para esse fenómeno específico – o grande ponto de partida para este artigo – veio do documentário Minimalism, mas pesquisando pela web rapidamente encontramos outras referências que nos lembram a importância de distinguir entre bom materialismo e mau materialismo.

Embora a divisão pareça dicotómica ou antagónica, pode traduzir-se popularmente à luz da expressão “tudo o que é demais enjoa” e evidencia-se quando pensamos na facilidade com que este materialismo se podia substituir por consumismo. Na teoria, até podíamos afirmar que nem esta acessão de consumismo está plenamente correcta, o que importa neste caso é o significado social de cada termo e expressão e as implicações que daí decorrem para as nossas vidas.

No caso do materialismo, as consequências – se assim se podem chamar – desta confusão são extraordinariamente interessantes de analisar nos dias que vivemos. Numa altura em que a nossa identidade – e a percepção que temos dos outros – é cada vez mais mediada por imagens encenadas, o conceito cinge-se cada vez mais à ideia de ter (ou parecer ter) muitas posses ou bens materiais, marginalizando um dos seus significados mais importantes: o valor que damos a estas cosas.

É esta pequena diferença que ganha toda a importância. Materialista será, assim, o termo correcto para definir alguém que dá muito valor àquilo que tem e não ao acto de ter.  E se isto pode parecer um detalhe pessoal, um aprofundar da reflexão sobre o termo dá-nos a conclusão para a sugestão do título. Sim, devíamos mesmo ser mais materialistas e dar mais importância aos bens materiais. Não no sentido de os fazermos valer mais do que outras coisas, mas de apreciarmos realmente o seu valor intrínseco, os recursos naturais nele gasto e todos os pormenores que lhe um significado real – uma ideia que pode muito bem ser ante-câmara para comportamentos sociais mais conscientes.